13 março 2010

GUERRA AO TERROR

Da série “Gênero por Ofício” e/ou “Ossos do Gênero”

Quem dera tivéssemos todos a preciosa visão de Kathryn Bigelow para deduzir os sutis meandros que fazem de um front de guerra um nicho, um habitat que como qualquer outro – e por pior que seja – tem suas cores e sua pulsação.
                Guerra é só que o que há. Para muitos é o amor a punção mais motriz disso que se denomina evolução. Segundo alguns é fome. Fome de viver, fome de bola, fome de sexo. Ou a busca por conhecimento, as revoluções técnicas – científicas, políticas – e assim o domínio do saber. Mas dentre tantos fatos sociais o que move de fato, o amor, a fome, o espaço, o intelecto e a humanidade, assim considerada, é a disputa pelos mesmos. É a guerra.
                Foi ela, essa mulher da história de hoje, que nos concede tal aporia. Por intermédio de sua narração vimos que, obstante a problemática estadunidense, essa vida que se desenha nos flandres, nos desertos, nos horizontes das cidades, nas colinas, e todos os demais palcos dos embates, é a realidade íntima de todos nós. Para ela, os louros e méritos de sua guerra: seu sexo a impedia de atingir o ápice. Sua luta e seu esforço derrubaram mais um muro que lentamente se estilhaça.
                A nós, sem arrolar as tantas guerras que o nós tenha enfrentado, no front temos hoje uma velha triste novidade: o que é essa guerra descabida que adentra nossos lares e nos tira tudo? Que realidade é essa brasileira, mundial, desses casos tantos, dessas mortes todas? A dúvida crucial é hoje mais que desgaste, desuso. Esse crime causa mais fadiga que revolta. Ainda sonhamos em solução? Qual é o resultado dessa matemática?
                Mas não importa o número de vidas que se vão, como a de Glauco, sempre é guerra. E não é preciso mais que uma para perceber que há algo de tão errado nisso tudo. Tanto que muitos vêem com normalidade. Será que Durkheim estava certo? Esse crime é necessário? E Dostóievski também, esperamos: todo crime tem castigo.
                O grande problema, o clímax da história, é quando guerra vira rotina. E ela é a maior castigada. Entre mortos e feridos, estamos todos nós nessas categorias, só. Existem vitórias, existe amor, existe fome e existe intelecto. Barreiras transpostas e um ideário que caminha a amplitude, mais que ontem menos que amanhã. Evolução? Enquanto houver tais elementos, ainda haverá guerra.

“Erra, quem sonha com a paz, mas sem a guerra. O Sol existe, pois existe a Terra. Assim, também, nessa vida real, não há o bem sem o mal. Nem há amor sem que uma hora o ódio venha. Bendito ódio, o ódio que mantenha a intensidade do amor...” (Pedro Luís/Carlos Rennó)

2 comentários:

Nicole Prestes disse...

Me surgiu uma dúvida, na lógica de Durkheim, a guerra seria patológica que perturba a ordem social ou normal que ajuda a mantê-la?
Gostei da analogia. Vou ler os outros textos.
Beijos.

Douglas disse...

Em termos durkheiminianos (por assim dizer) o crime é patológico da sociedade e, justamente por isso, normal. É um fato social, necessário a reprodução da mesma, por intermédio da ordem proveniente da exemplicação dos extremos que a compõem. Trazendo do micro pro macro, isto é, a guerra enquanto conceito, a presença desta na história além de força motriz (desde o período clássico guerra entendida como crise que em grego é mudança) pré-existe enquanto antítese dialética (como na citação final).

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