04 agosto 2010

ERA UMA VEZ LÚCIA MOURA

CIRCULATION

Por Cecília Prada



Era uma vez Lúcia Moura.

Era uma vez no Colégio Notre Dame de Sion, no curso primário. O banheiro não se chamava banheiro. Nem toalete. Nem reservado. O banheiro devia ser chamado em francês, circulation. Tinha uma chave grande com uma medalha pesada, que ficava dependurada em um prego. O ritual desenvolvia-se assim: uma menina levantava-se, só uma de cada vez, nunca mais de uma. Jamais duas meninas juntas no banheiro, aliás circulation, não podia, no Colégio Sion ou em outros colégios de freiras. A menina em precisão se levantava, alcançava na ponta dos pés a chave dependurada no alto, atravessava a classe, abria o circulation que ficava no fundo, dava um tempo, voltava, recolocava a chave no prego.
Lúcia Moura – a blusa engomada, os pulsos juntos sobre a carteira, a pose de cachorrinho em atenção permanente. Sentada como se devia sentar à mesa, as madres ensinavam os três mots da educação, toujours (sempre as mãos apoiadas no tampo), parfois (às vezes o antebraço), jamais (nunca o cotovelo). Os cabelos louros em duas tranças grossas e bem feitas. A cara branca. Muito branca. A menina lavada. A menina de branco lavada. A menina que as mães das outras meninas apontavam: “Veja aquela menina, o seu uniforme, que engomado, que limpeza”. Menina-modelo.
Lúcia Moura tirava boas notas. Seus cadernos todos encapados de azul. E quando ela se levantava para ir ao banheiro, pardon, circulation, sua presença passava de leve entre as outras, passos delicados que nem roçavam o assoalho, parecia. O próprio fato dela ir ao circulation tornando-se transparente. Porque todo cheio de graça e doçura.
Às vezes notava-se apenas quando ela não estava lá. Não se percebia como passara entre as carteiras, não se fazendo notar – branca, graciosa, loura, impecável. O circulation começou a ficar ocupado demais. Quem? Lúcia. Lúcia Moura. Voltava, mais branca, mais limpa, mais etérea, entre as carteiras circulava, circulando mais e mais, Lúcia Moura, circulação. As outras já em risinhos. Que a ela não chegavam, parecia. Tudo o que nela batia, voltava. Refrangia. De tão branca e limpa, Lúcia, Lúcia Moura, refrangia a luz, a brancura, a beleza, a pureza. As meninas estranhavam, o que faria tanto no banheiro, pardon, circulation? Os risinhos e comentários não a atingiam. Passava ao largo. Uma rainha. Às vezes levava um livro, um caderno, demorava. As mãos muito lavadas. O cheiro do sabonete. Lúcia Moura circulava.
Um dia Lúcia Moura levantou-se, pegou os cadernos, os livros todos, como quem ia embora. Foi até o cabide onde ficava a chave grande com medalha. Tirou-a do prego. Tomou a ala central da classe, passou (os cabelos louros, as tranças, a tranqüilidade), caminhou até o fundo, empurrou com lentidão a porta do circulation perante a classe atenta, desperta. Madre Marie-Jésus ficou parada, com o apontador na mão. Um silêncio. Lúcia, Lúcia Moura encostou a porta sem trancar. Pelo vão viam-se pedaços de gestos, a água correndo, seu barulhinho. A madre caminhou também pela ala central, as meninas se levantando nas carteiras, a freira escancarou subitamente a porta: Lúcia Moura parada, muito branca diante da pia, lavava cuidadosamente com água e sabão todos os livros, todos os cadernos cuidadosamente encapados de azul.

No dia seguinte Lúcia Moura não veio à aula. Nem nunca mais.

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( Do livro de contos Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão – 2004)

2 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Marco, como sempre surpresa e encantada pelo meu continho ter despertado tantas coisas!
Que os leitores do "De Chaleira" curtam como você minhas literatices, serei (sou!) uma escritora

Cecilia Prada

Marco A.de Araújo Bueno disse...

No pretigiado site Cronópios desta terça,dia 10,um outro continho da Cecília - Aprendizado -como sempre brilha de sagacidade e de tanta agilidade visual. Pode brilhar por lá ou até no site Pnet de Portugal, mas ferve mesmo é neste De Chaleira, onde é fagulha da casa.

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