26 março 2011

VIA

Av. Aguanambi fotografada da janela do meu apartamento, madrugada qualquer, Fortaleza/Ce.

Tem gente que não trafega, naufraga.
Ao acimentar semente para germinar autoestrada.
Realiza a motorsíntese, inalando carbônico.
Gasolina e álcool como se fossem água.

O asfalto dá crosta aos pés sem destino do profeta.
Preto-tapa-poros na testa. Pare. Siga. É logo em frente!
Poucos sabem ler as fissuras de calcanhares mendigos.
Sirene. Ceroto. Semáforo. Senhora a atravessar rua.
Para se seguir à risca na reta, tem de se perder na torta.
Se vier a viver a mil por hora, alimentar-se de poeira deve.
Sem consultar relógio, nem cobrar taxímetro, me leve.
Os quilômetros ainda a percorrer fuligentam demora.
Pneus envelhecem, ficam carecas, grunem alto e fino.
A existência: essa eterna sucessãozinha de acidentes.
E cá nós estamos, entre mortos e deferidos.
Cantando o hino dos buzinaços.
Comprando passagens só de ida.
Fazendo ponto nos faróis de milha.
Verde. Amarelo. Vermelho. Volta.
Esmaga escaravelho* na faixa de pedestres.

*No Egito Antigo, escaravelhos eram seres sagrados, usados como amuletos relacionados com a vida após a morte e a ressurreição. Utilizados em mumificações para proteger o morto no caminho para o além. 

2 comentários:

Marcelo Finholdt disse...

Vinícius disse:
"A gente mal nasce e começa a morrer"

Em certa altura meditei muito sobre a hipótese de já nascermos mortos, porém a caminho da vida, de um destino, ou vice-versa.
Percebo que os signos, simbolos, etc; formam um véu entre meus olhos e a realidade. Vez em quando vejo algo turvo, quando o vento alinha algum orifício deste véu com uma das minhas retinas.

Valeu!
Marcelo Finholdt

Paola Benevides disse...

Isso foi melancolindo!

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