26 outubro 2011

ARQUEOLOGIA DO SILÊNCIO

Por Cecília Prada


Silêncio é coisa de cuidado. É de vidro. Se vier acondicionado em uma caixinha é melhor? Pontiagudo como pinça de relojoeiro. Às vezes tem de ser embalado em algodão em rama - como minúsculo bebê prematuro.

Mas silêncio também é peso. É laje. É esmagamento.

O pior é que pode advir de repente, sem aviso, desabando tetos em cima de nós. E durante anos assim permanecendo, até nos darmos conta de como a tragédia se produziu e do porque de estarmos soterrados. Para assim tentarmos , com paciência e astúcia, ir removendo o entulho, até conseguir emergir a cabeça. Podendo até nos ocorrer tomar conhecimento então de que o que julgávamos ser laje, pedra, argamassa pesada, seria apenas papelão corrugado. Que poderíamos até, com algumas sacudidelas tão só, ter sacudido de sobre nós, há muito - poderíamos talvez até rir de sua fraudulenta ameaça.

Se boca intacta para rir nos houvesse sobrado.

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2 comentários:

Paola Benevides disse...

Aquela sensação de quando uma multidão falante mesclada ao trânsito e à música alta cessa de repente e todo mundo estremece. Senti essa nudez ao ler teu conto, Ceci. Lindo lido, obrigada!

Anônimo disse...

Esta gente, cá, no de chaleira o que precisa mesmo é de alguma ilustração e de um círculo maior de leituras. O que se escreve aqui é desprezivelmente elementar e inócuo.

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