27 junho 2013

UM POUCO MENOS


Um pouco menos

Nem tanto para direita, nem tanto para esquerda. Há algo no meio disso que destoa. O corpo pede um pouco menos na bagunça de seus movimentos. Na iminência do errar o caminho, no instante do desvio, no titubear do salto, no improviso do gesto, no piscar de olhos – o espetáculo não pode parar para que o corpo se ajeite. A janela que dá para o lado de lá flerta com as linhas, mistura a luz que por ela entra com as luzes dos holofotes. Linha e luz que adentram corpo e jogam com a cena.

Lá fora, nem as tintas, nem as borrachas fazem com que o corpo pare. As câmeras desfocadas querem captar paixões. Lá dentro, as cortinas, ainda fechadas, encerram o momento, esperam que o corpo lhe peça abrigo, mas não sabem que há muito o corpo despiu-se.

As nudezes do grito e do giro se atracam e enroscam no meio fio. E por que ele se chama assim? Meio fio? Onde está o fio todo? Talvez esteja perdido no meio dos fios do público e da multidão que, dentro e fora, querem ver o corpo mostrar seus ensaios. Mas o corpo cansou de ensaiar, ele quer mais que o diabo o carregue para bem longe de tanto ordenamento.


Já cansados os olhos, então, avistaram a parede, pela janela. Nela estava escrito: “Sou aos poucos”.

Um comentário:

Paola Benevides disse...

Tão inteiro, mesmo por partes, que bonito!

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