16 junho 2010

VIAGEM AO FIM DO ESQUECIMENTO

VIAGEM AO FIM DO ESQUECIMENTO

Por Cecilia Prada

É caminhar decidida em direção ao tempo passado, olhando os despojos, os rostos ansiosos dos personagens que ficaram sentados com cara de pateta me olhando, esperando que eu me decidisse a retirá-los dos sonhos, dar-lhes consistência e abrigo, nome, circunstâncias - eu que os vi. Eles só vivem em mim. Eu sou o seu escoadouro, o seu “cavalo” espiritual, eu sou o meu próprio “cavalo” - pois ir em direção ao passado é ter a coragem de encontrar todas as cecilias que eu fui. E as que eu poderia ter sido. E não fui - por indecisão, por falta de uma vontade imperiosa, por excesso de sonho, por medo, angústia, tensões, indefinição.

Estertorosas vozes do passado - o que me diziam? O quê, teimavam em destruir, dentro de mim?

Escrever - é só um resgate de vozes. Escrever sobre a infância - é correr de pés descalços e olhar ansiosa atrás das sombras daquelas manhãs paulistanas de meio século atrás. Mergulhar nelas, seu sabor, seu cheiro de árvores podadas, os galhos jogados nas calçadas, o céu azul puro, o ar frio, a banda do Liceu Coração de Jesus pontuando o silêncio, abrindo seu caminho marcial. Fanfarra - na manhã de prata.

*

Os dois ritmos possíveis da vida.

Na minha casa, minha mãe de rosto tenso às sete horas da manhã, já vestida e penteada - “nunca ninguém me viu de penhoar!”. A manhã era obrigação de coisas enfadonhas, ter de levantar, tomar banho (sempre de manhã) vestir-se, tomar café, fazer lições, estudar piano, ajudar a arrumar a casa, vestir o uniforme, partir para o colégio. As coisas sempre vividas com iminência de catástrofes - e se não fossem feitas? E se não desse tempo para elas se realizarem? As coisas que não eram coisas, que eram coisinhas reles, pontos em que amarrar o vazio da existência - que resultava assim em entulho enorme de coisas não-feitas. A vida não dava tempo, nunca. A vida era uma obrigação tediosa, ou terrível, sempre. Exigência devorante, que eu trouxe comigo pela vida toda, que trago até hoje... Como essa exigência se transformou na minha exigência auto-imposta, constante, “ter de escrever”?

É nesse momento que paro, estarrecida, recém descobrindo-me: vamos à raiz das coisas. Como elas se formaram. Dupla face, então, dessa escritura que eu amei e amo acima de tudo? Essa a raiz da importância, do bloqueio literário?

- A sombra que reconheci, muitas vezes. É uma Sombra que se projeta (minha insegurança) o que me tem impedido de escrever normalmente. De me entregar com prazer à literatura. Enquanto eu não a levantar na ponta da lança mostrando-a sanguinolenta, esfarrapada, não poderei liberar o fluxo, que é, enfim, o grande rio, a comunicação com os personagens, as histórias, a poesia.

A fala.

Chegamos à raiz das coisas, pois - há um assassinato, na escritura. Um assassinato potencial, embutido no ato de escrever - a fina ponta da minha caneta é bisturi afiado, penetra carnes devolutas/revolutas, maníaca ponta de agulha de crochê da história. No extremo da minha trajetória na terra, como estou agora, olho a longa linha. “Ainda não estamos habituados com o mundo. Nascer é muito comprido” - dizia Murilo Mendes. Tenho medo, meu olhar que busca lampejos de prata com tapetes vermelhos estendidos no quintal para tomarem sol, (enquanto a fanfarra do Liceu acordava a manhã), pode contemplar uma terra calcinada, cinzas - destruição.

A infância não é, mais.

Um comentário:

Paola Benevides disse...

Happy BLOOMSDAY everybody!

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