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brassaï |
Era a múltipla face de monólitos esquecidos
na caverna de ossos, que se mexia vibrante entre as veredas. Transbordava um
vazio negro, tão profundamente indivisível, como se qualquer um que ali
navegasse e encontrasse na madrugada sem luar, a junção do céu e do mar. Porque
o mar às vezes é negro quando calmo, não sabia disso? É como estar navegando no
espaço sem estrelas.
O sorriso que comportava essa
explicação ocultava a dor da ausência de ser inteiro fazia-se vagar entre o chá
servido, naquele pequeno espaço oriental, onde a dança lenta das xícaras e
olhares fugidios temperavam o ar com perfumes, simplesmente para saber o que
vai dar. Mas não era impregnado pelas cores vibrantes necessárias em diversos
corpos feitos de tinta, No entanto não são apenas os caracteres frios de uma folha
branca e a ponta de uma bic, acredita-se que era nesse meio que os corpos
suspensos queriam estar.
Afastava meu pensamento do que
desenrolava ali, naquele colchão, via de longe a mecânica se canibalizar pela
vontade de preenchimento, mas ambos sabiam que seus vazios abissais o afastavam
e os comprometiam a uma amizade, e não a uma possível paixão. Ele começara a
querer o corpo dela, ela não queria corpos, ela queria não contemplar os
abismos dela, estando com ele dentro, mas ele estava tão envolto em suas
feridas maciças que ela contemplava seu negro escorrer assim como escorria seu
gozo nas pernas abertas. Assim como chegava ao orgasmo, porque queria chegar ao
orgasmo, mas sem amar o outro que ali dividia aquele momento. Não conseguira
amar, não conseguiria mais. Pela primeira vez em anos, ela abria as pernas sem
o peso das sentimentalidades, mesmo querendo abrir as pernas para um preenchimento
sem amor, ela queria não observar as feridas, e não sair de lá mais puta que entrou,
não transformando aquele outro em mais uma galáxia que era engolira.
Era inevitável, ela era a puta que foi ali gratuitamente abrir as pernas, ele era uma galáxia cheia de cor a ser dragada. Ela dragou, e caiu no seu abismo.
Era inevitável, ela era a puta que foi ali gratuitamente abrir as pernas, ele era uma galáxia cheia de cor a ser dragada. Ela dragou, e caiu no seu abismo.
Mas todo o momento da queda, ela
procurava brumas, o nevoeiro gelado que invadia as rachaduras, deixando seus
espaços esquartejados preenchido de nuvens plúmbeas. No caminhar seguia-se o
peso do retumbar das palavras de outros tantos corpos tatuados invisivelmente
em sua pele, que cheirava a sexo, pele que não era a dela essencial, pele
fragmentada e friccionada em amores expressos. Só, sua fuga era concreta, era
inteira em seus pedaços e buscava mostrar-se assim, partidos para alguém que
não tivesse o medo de olhar para o vazio. Ela foi, foi vazia de encontro às
nuvens que permeiam desfiladeiros, ela caia e caia dentro de si, sabendo que o
vento passava por entre as veredas, causando a sensação de enchente.
Um comentário:
a dor sempre me pareceu bela... Afirmo aqui.
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