Por Carmô Senna
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egon schiele |
Era
o peão ou os reis no jogo? Não sei! Sentia-me muitas vezes os diversos prismas,
o peão, os reis e a mão que movia as peças. O jogo sempre começa com um oponente
a altura, alguém que mexa cada um dos ícones como regendo uma sinfonia.
Destoante musicalidade de escolhas. SER E NÃO QUERER SER, não é uma questão
shakespeariana; é minha questão de movimento. Meu oponente sou eu. Uma das
minhas múltiplas faces me enfrenta neste momento de jogo. Sutil, mas um jogo
inteligente e extremamente perigoso. É bom dissecar o outro, mas não gosto de
dissecar a mim.
O
quarto é extremamente pequeno e vou desenrolando o novelo vermelho e ligando os
pontos num emaranhando de aforismos. Minha teia de aranha de nevoa vermelha, meu rastro de
lã contra minotauros, minha dramática morte profetizada. Tudo não passa de
matemática, cada lance que avanço e recuo são calculados como o simples “2+2”.
Mas, odeio contas precisas, a perfeita mágica numérica onde provamos que zero
significa zero. Odeio a exatidão das escolhas, odeio olhar para uma equação
complicada e achar uma resposta simplificada, mesmo contendo um infinito de
possibilidades nesse zero absoluto. Eu quero o não absoluto, o inexplicável, o
degenerado modo de minha mente produzir o mapa das esquizofrenias nossas.
Não
compreendo o que me coloca distante e contempla sem uma adoração, sem um
fetiche que me drague. Olho o outro com atenção científica, mas não sei
discernir o que move essa permanecia muda. Sou sempre tão movida a querer um
detalhe; mãos, olhos, vozes, pedaços do corpo que ao encaixe violento com o meu
fragilizado provoquem orgasmos. O que seria então o orgasmo do vento? Essa
duplicidade de paz sem violência, mas violento embate dos meus? É tão extremamente
herege esse tipo de sensação, correr para o não palpável, para o cerebral modo
de encantamento do século XVII, a sutileza cortês de cortejar o romance com
romance, um modo delicado de levar prazer ao outro. Como se do ato de suspirar,
respirar e tocar fosse uma extensão de atos não consumados que são imaginados
pela parte doente do canto oposto da mesa.
Aos
meus pés o cão faminto leva embora o sono,
mastigando a curiosidade que de mim advém como qualquer fogo mal extinto. Olho!
Espreito o abismo, que meu corpo nu é e a lua desvela, revelando as pressas uma
vontade de viver o minuto passado ao redor de flores raras.
Que lua esta perdeste anã sobre o encanto da bruma? Cor, que guia
minha dor de dias, onde a guerra fria deflagra sobre a minha cama, grande
inquietude. Cada livro-bomba recai na cabeça monástica como um asteroide vindo
de parte alguma. Se eu morresse essa noite pós esse jogo uno, cada pedaço meu estaria
espalhado em estrelas-papeis. Expondo as partes mutiladas que outrora se faziam
inteiras no quarto d’outros. O meu passado é uma Alexandria em chamas no fundo
do oceano. E eu um aquário de fumaça. Carregando
com isso meu coração plutônico à inanidade da falta de fome, tornando cada dia
o pretérito imperfeito na lembrança. Um estado consciente de vontade de encaixe
e preenchimento impreciso e fragmentário. Acho que em mim, foi, e de ti sobram castelos
assombrados, ei de contentar-me a assistir teus impérios longe dos meus, por
tempo infindo até que a consciência sobreponha o antigo e lave o sol com minhas
lágrimas áridas. Ei de arriscar o jogo, ei de arriscar na nevoa.
Um comentário:
Engendrou em mim o mal de parkinson, uma febre que não acaba mais. Tirou-me da trajetória do asfalto, do eixo da bicicleta. Deslizo nos mares de paralelepípedos.
Eis seu texto.
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