30 novembro 2010

LOGO DEPOIS

LOGO DEPOIS


Por Bia Pupin


Há lugares aos quais nunca mais se retorna.
Renata remoia, reacomodava, murmurava, desfiava. Encolhida sob o edredom, tentando submergir em seu próprio mundo. Repleto de loucura e raiva. Era levada para lá, embalada pelo rio profundo que se movia em reflexos e corria segundo sua vontade.
Renata não admitia regras, normas. Era ali que ela conseguia ser selva, ser pássaro, ser tarde, ser dia...
Foi o lugar que sobrou depois da ilusão.

29 novembro 2010

23:45



Eu a espero para o jantar
junto da mesa do telefone
até que a fome passa e vou me deitar.

Ela sabe exatamente o que faz,
eu não saberia o que fazer em seu lugar,
eu nem imaginaria.

Toda trama do tapete afrouxa
e o calor potencializa certos odores.
É a mesma a cada nuance,
a cada dobra sob o tato.

Toma-me como exemplo a estranhos.
Toma a bebida do meu copo
e se levanta.

Tomara que ela retorne,
penso uníssono com todos a minha volta,
e ela volta.

.

28 novembro 2010

A CAVERNA

A CAVERNA



Saio cega da caverna de Platão.

Procuro os sábios do templo,

Os filósofos e os magos.

Esbarro em sombras que

Persistem.

Caminho atordoada e feliz

Sem saber o caminho,

Sem saber se o lado de fora é outra

Caverna.

Meu caminho é sem volta

Porque o mundo - com todas as cavernas -

Está dentro de mim.

.

27 novembro 2010

INSTINTA





Dentro há o centro do delírio. Redes e moinhos deitados no eixo. Nunca dê lírios a quem está vivo, dê vários. O copo de leite cheira a filho morto dentro do armário. Roupas deixadas de lembrança à casa, retalhos. Pisei caco de vidro do vaso quebrado. Continha água para crescimento, mas havia matado o excesso. Eu me excedo tanto tarde. Dê mais. Beba mais desse líquido e então se sentirá bem. Beba, beba tudo até o mijo. Ele esteve enjoado da vida que não deu. Precisa coragem. Dois remos. Um barco. Atravessará a terceira margem do riso quando formar um lago com todas as lágrimas. As que pingaram no travesseiro, no solo, na pia, no braço. Aquelas que as pessoas viram e desviraram na tua cara. As choradas encolhidas no banheiro. Eu já quis comer as maçãs do meu rosto, rubras de desespero por forçar a elasticidade dos cantos da boca, retirar as minhas cascas com navalha. Sangria interior: se não cura, extravasa. Jorra tanto que seca por hora, periga voltar. O tempo vai fechando, quanto mais nuvem, mais cura. É algodão embebido no pranto da lua, esburacada de tanto ácido posto para fora. Dá língua feito criança ao remédio amargo, peito de madrasta. Vai cansar do próprio espasmo e se tornar espanto. Após tanto, virá apático feito velho, coma deduzido. Sentirá toques na dormência. Já percebo meu lábio caindo. Foi de falar mal dos que pintam o céu, de beijar o chão que papisa passa, de comer beligerância na porta da igreja entre pipocas e mendigos. Aqui não tem vaga. Trabalho para preencher o bolso do tempo, mas não tenho troco. A troco de quê? De quebranto. Não acredito nas evidências que sinto. Sou um burro humano alado, alheio ao relinche do mundo. Coice à foice rasga o casco. Ferradura, fogo, marca a rés com sadismo. Masoquismo é tatuagem. Meu corpo está limpo: sou boneco de piche. Puxo o pé, coxeio, engasgo. Nem tenho abraços de polvo. Também falta-me cabeça. Qual pedaço possuo? Dedos apontando lápis, unhas de fome, calcanhar de aqueles que caminham na direção arquitetônica moderna do universo em quadrados.

25 novembro 2010

Ofélia II


Por Marcelo Finholdt

No regaço da vida:
pensei maior, menor...
Sonhei distâncias, idas;
sonhei cores, de cor...

No regaço do sonho:
sonhei em branco e preto,
então cores reponho:
almas, versos, sonetos!

23 novembro 2010

LIÇÃO



"Lição"

Por Marco A. de Araújo Bueno

Quando as portas se abriram
Eu já estava preparado;
Estava morto, de medo;
Já me sentia empurrado.

O tempo estava nublado
De descaminhos no ar.
Havia um eu desgarrado,
Empurrado a desgarrar.

Foi estranho como aquilo
Engolfava-me a garganta
A desandar-me a chorar.

Então, fecharam-se as portas
E nada, agora, me espanta:
Desaprendi a ficar.

22 novembro 2010

POEMATERNIDADE

Por Rafael Noris

Meu poema com muito esforço
sai feinho, cara de joelho;
Letras a menos, um troço
triste, o qual me assemelho.


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