06 abril 2010

O PACOTE


O Pacote
Por Marco A. de Araújo Bueno

Dava para cortar o silêncio com estilete quando ele irrompeu pela escotilha, esbaforido de sofreguidão antiga, dos tempos da permissão sexagenária.-“ So tired... ”! Sou eu mesmo e estava em silêncio, que pacote é esse?-“ Serve pra manter a gente esperto; gente que eu digo, sou eu; pra vocês, pode virar caixa de Pandora. E esse silêncio precioso, lá fora, conspira contra a integridade física de quem se orienta COMO GENTE”, gritou, e me pediu um estilete. Que palavrinha mais subversiva, ousei, para serená-lo – posso te denunciar à PH do condomínio...Que tem aí dentro desse pacote, seu velho paspalho, baterias? Células recarregáveis?

-“Antes, camarada bundão, a Patrulha Histórica que vá pra puta que pariu; trouxe caneta de escrever mesmo, alcaparras, lâmpadas opacas, lã de vidro, remédios para dormir e um rolo de barbante, para esparrelas de labirinto. O que é esparrela? É tudo isso aqui que ronda a sua burrice adestrada. De alcaparras nem se lembra, não?” Vagamente, condimento... “-É, é bom sinal diferenciar condimento de condicionamento. É pra reavivar o sensorial do comer; um ovo quente, de salmonelas amigáveis e o grão da alcaparra, um só – e a sensualidade espraiando-se pelas papilas, enquanto você vai sorvendo a leitura desses ácaros cheios de livro impresso; carregados...”.

Nada prenunciava o que faria adolescer o velho ºªCidart (assim digitava seu nome) madrugada adentro. Tossia muito, ambiente pressurizado, livro velho, nostalgias velhas. Ele, o ºª, de pronúncia seca, seu prenome, com seu sobrenome-índice velho e sua tosse seca; uma temeridade à homeostase sempre em risco quando irrompia pela escotilha. Servi o chá e ele de olho no pacote – onde o colocaria a salvo de minha legendária curiosidade (devia estar calculando). Ácaros transgênicos têm radioatividade? Talvez precise de pílulas para dormir em paz...-“Tome seu chá e ao termina-lo, erga o pacote ao terceiro nível da bancada, na altura dos meus olhos. Amanhecendo”.

Tossia e arregalava os olhos fixos no pacote, A temperatura caíra muito lá fora, mecanismos oxidados não impediam um ar gelado de entrar sabe-se por onde. Feriado amanhã – dia do Desapego e Jejum. Jogos comemorativos, caminhadas rituais das tribos todas; nada de técnico para reparar vazamentos. De um salto sacou a caneta antiga: - “Here you are, catch!”. Falava pausado, como um nobre: “vou soletrarrr, letrinha por letrinha, devagarzinho... por obséquio, boy. – desenrosque a tampa devagar”.Falava ofegante, hipotermia, insuficiência respiratória: - “G O(sim, ir, aonte? Socorro?) Não, porra, prossiga: G O L (Gol de quem? Jogo?) Do Capote, bundão, Cap...!

É...

Um comentário:

Amoor disse...

Amei os seus textos, muito criativo, e totalmente ligado a realidade.!

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