09 novembro 2010

CAMAFEU

ILUSTRAÇÃO - Por Alan Carline



CAMAFEU

Por Marco A. de Araújo Bueno


Deixando o restaurante bandejão, lá vinha a Roxana equilibrando mochilinha nas costas, tonelada de xerox na mão esquerda e um saco plástico contendo uma baguete de pão murcho e uma laranja não descascada. Eu acompanhava a cena de um ponto do campus onde, aos trancos, sacolejando, desembestando pela turba, ela trombaria comigo, surpresa, mas agradecida: - “Ah, o cara, meu anjo da guarda, o carinha que deixou a Psico pra entrar pra História!”. Assim me enquadraram quando, alguns anos de formado, consultório claudicante, entrei para o curso de História querendo esquentar um projetinho de mestrado que me levaria a muitos, muitos pontos do campus. A gente conversava papos-cabeça enquanto eu lia seus troncos e membros. Ela achava meu olhar “algo penetrante...” essas conversas sobre Eros e Tânatos, e eu sentia alguma ternura melancólica pela sua libido-algo dispersa- ali distribuída entre os textos pesados para os dezenove da menina e o pão murcho, que pegava por pegar, do jeitinho mesmo como pegava meu membro e enlaçava meu tronco. E nada, nada sabíamos sobre a laranja e o que já significava àquela altura. Tratarei de descascá-la aqui, com um leve arrepio na espinha e muita dificuldade de recordar a fluência com que passeávamos por tantos labirintos simultâneos, com o fio de Ariadne que nos oferecia a nossa condição de “membros”. Proust acreditava que o passado residia nos objetos.
Que a laranja me faça as vezes da Madeleine no chá que trouxe toda a infância do escritor, em Combray. E eu os conduzirei pelas andanças de um outro objeto, por corpos, por lugares e por instâncias vertiginosas entre tânatos e o que tínhamos de Eros.
Ela e eu nos sentamos de frente um para o outro com as pernas abertas ao modo de sempre. Entre as dela, duas sedinhas, uma pro digestivo, outra para envolver um camafeu microscópico preso à argola de um piercing. “O passado (apontei para o pão), o presente (para o baseado) e. o futuro?” Uuuuu...
-Acho que não vai acreditar - falou arrastado - envolvendo a peça insólita com a sedinha e erguendo o polegar esquerdo enfiado até a metade da laranja cuja casca rompeu por cima, sem ferir os gomos. Imagina o que se pode esconder entre estas suculências cítricas, como se cravasse na rocha... e dissolvesse, assim...
Eu perdi a seqüência dos movimentos desviando o olhar para o trote, nada abstrato, das ancas e peitos de Luciana que se aproximava explodindo em sol, transpiração banhada e aromas de cânfora, rangidos de calçados aquáticos e mais a volúpia animada pela convicção de trepar comigo, depois do almoço, como gostava. Era a hora do nosso itinerário pelos recantos preguiçosos do campus pós-prandial, entre laboratórios de Física, abandonados- “Bom, eu já curto endorfinas e coisas parecidas, assim, viagem de pele, sem maldade. O que rola com os de ervas, to trocando por serotonina e toda dopamina da minha lata mesmo, ô caras, sai dessa!”.
“Aceite esta laranja aqui, Luciana, vem, a gente caminha pelo fumódromo e então vai me contando como curte o cara, sem maldade...” Afastaram-se, e eu fiquei vendo quase mudo como uma lentificava a outra, enquanto se dissolvia o enigma da fruta, com um camafeu preso ao piercing metido pelas estranhas. Piercing de língua. A propósito, a Roxane pesquisava línguas nativas de tribos não aculturadas. A tarde passou. Manhã seguinte, depois do intervalo, a notícia corre: morreu de congestão! Comeu carne e foi pra piscina, já era, a gostosona.. Uma tragédia, coisa horrível de ver, enrolou a língua, ficou roxa roxa, ta estendida no lava-pé esperando a enfermaria, mas já foi, todo mundo acha, choradeira, que morte estúpida, coisa besta...as amigas querendo nem ver, a fruta no chão... O frio na espinha veio com minha manobra bem sucedida que, num vacilo dos para-médicos, logrou retirar-lhe o piercing da língua e, mais tarde, arremessá-lo ao lago central do fumódromo, na ala sul. Não me perguntem a razão. É muito cedo ainda. Um impulso, de protegê-la, talvez. Até hoje não sei. Nas semanas seguintes, quando a observava de longe, sentada, catatônica, fitando a pouca profundidade do laguinho, na ala sul, oposta à saída do bandejão, ficava sem pensar. Ela, sem textos nem pretexto; sem pão nem laranja. Parecia encantada. E estava.
E eu estaria assim, até agora, se um varredor que me espiava enquanto eu olhava Roxani espiando o lago, se ele não tivesse comentado que ela deu em cima do Jonas, naquela semana em que o funcionário achara uma jóia no laguinho. “Devia de ser valorosa, pois se a branquela do lago num tava maluquinha, querendo até pagar o menino!” E o cara, perguntei, - ué, pois num sumiu do laboratório, daqui, do mundão? “De primero ele queria avaliar direitinho a coisa, depois voltou pra cá numa sengraceza, falando que devolvia, mas comia ela antes, a moça. Pegaram os dois nuínho na Física, ela enrolava ele com fibra ótica, que ele tava todo marcado. Pois num sumiu objeto... prisma, os avental, umas chave também! E ele também, ué, e ela fica aí olhando pro nada dele”.
Pois agora digo eu- não é que, no dia da laranja estuprada pelo dedão dela enfiado, o normal não teria sido eu ter arrastado a gostosona da Educação Física para o laboratório de Física e, ao modo de sempre, esquadrinhá-la com filetes de fibra ótica! E depois caminharmos, nus sob os jalecos, pelas espirais do Observatório a Olho Nu (às vezes, nem dava tempo de chegar a Lua e outros astros que poderíamos contemplar, luze e lume agora mesmo, Luciana, fosforesce por baixo do tecido branco e arreganha luz no meio do meio da tarde ociosa do campus pisoteando os chapados, as chapadas e as obscuridades todas, chupa agora Luciana, chupa enquanto eu peno as chaves pra despistar esses delitos, chupa a obscuridade de todo conhecer!). Nunca ninguém mais achou o prisma.
Mas... se não acharam nunca mais também o Jonas, quem era eu pra chegar na moça, encantada, e perguntar. Perguntar de quê? Ousaria descobrir como teria reproduzido a minha delirança toda com quem luzia, enquanto ela se enterrava nos próprios gomos a fundo, sem anjo-da-guarda (Ó!) e, agora, tadinha... sem um camafeu?
Uuuuu...

5 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

"|Cecilia Prada para mim

mostrar detalhes 07:05 (20 horas atrás)
+’

Então, Mar Quantônio - desta vez, adorei teu conto. Ele vem recheado de um sabor de humano, de presente, de vida transparecendo ( a custo, embora, como convém ao gênero) . Frestas, no tecido cor de chumbo do Futuro, por onde transparecem as cores brilhantes que ainda nos são permitidas hoje ( a custo, também) .
Muito contente que tenha dado tempo. Parabéns.

{Comentário autorizado pela colega e referente ao conto 'Novembro/3001'a ser publicado no último livro do Projeto Portal - o Portal Fahrenheit e, posteriormente - nesta coluna Brevidades aqui; em quinze dias...Será? Enviei e-mail aos colunistas e ainda não o postei em meu blogue - o Festina Lente}

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Nelson de Oliveira para mim (por e-mail; coordenador do Projeto Portal):
Marco, meu caro, o conto é genial. Com ele, você fecha com chave de ouro tua participação na série de portais. Como eu disse por telefone, não espere a compreensão da patuléia. Estou convencido de que os leitores interessantes leem nossa ficção, gostam, e tocam a vida. Já os leitores mais rasos leem nassos contos, desgostam e fazem um barulhão danado na web. Ficam parecendo multidão, quando na verdade são poucos.

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Marcão,


Tirando a explicação inicial sobre o conto: "Trata-se de um 'Posimetrum', forma que data de coisa de trezentos AC, em que a narrativa (prosa) ganha em sonoridade o diapasão da métrica, coisa da poesia, ou seja, parágrafos são blocados como se fossem estrofes...." que confesso, num entendi patavina o resto ou melhor o conto mesmo é sensacional, com sacadas futuristas muito inteligentes e com momentos de pura poesia como: "Somos a mútua contra face da existência um do outro..." e "A face oposta do espaço sideral - o Oceano....." além de tudo isso ficamos muito felizes em vermos nossos nomes nos agradecimentos
Aliás, estamos com saudades do casal, vamos ver se marcamos alguma coisa nesse final de semana.


Um abração e PARABÉNS!!!!


Serrano' {pai do Daniel Serano, do PQP, ora em Coimbra e do Pedro, do Ismo a Esmo, sociologis/USP; aí, desculpe qquer coisa, rs; gratíssimo pela leitura atenta, profiça - sim, com citações etc. como conviria a muitos que se dizem resenhistas e tal.}

Daniel Serrano disse...

tanto tempo faz que li esse conto pela primeira vez; relido, não perdeu em nada ao que lembrava dele. redondinho, cativante, sem reparo possível!

Marco A.de Araújo Bueno disse...

[Ref.- NOVEMBRO/3001]
Oi Marco, muito profundo, gostei!!! A criança "capturados livre e intensamente num contante estar distraidos" Como é facil e triste idiotizar uma criança...

bjs,

Lya

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