14 novembro 2010

NÓS NA CAMA: SONHO LITERAL - PARTE II

FOTO - Por Celso Menezes

NÓS NA CAMA

Por Marco A. de Araújo Bueno

Lembram-se de como Fleming descobriu a Penicilina? Pois foi sonhando com os fungos de seu dia de trabalho. Eu queria é trazer à tona aqueles “fungos” cotidianos que reverberam e luzem em figurações alucinadas nos sonhos. Antibióticos, a gente compra e o Câncer, “a gente raspa”, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro. A morte, a gente vive. Todo dia.
Esses resíduos do dia, o “resto diurno” de que falava Freud e que, para o filósofo Walter Benjamin, interessavam quando enquadrados, delirantemente, na narrativa maluca do sonho (e não, ao contrário de Freud, quando clinicamente “interpretados”...), é dessa piorra do dia que eu queria tratar aqui. Da coisa pequena que vira fagulha, contra as expectativas do próprio sonhante, do seu entorno ardiloso e de todo a marquetagem de realidade à venda na esquina globalizada. O dia nos empurra versões atrativas, leves. O sonho opera a grande transgressão. Até porque, ele mesmo, nasce de uma transgressão à censura que age, para manter inconsciente, toda a poeira do dia. Que, afinal, é a poeira da História, para o Benjamin, e não a versão oficial que nos “oferecem” a respeito dela. O dia nos empalidece de sustos também. O sonho digere o que se engoliu a seco, metaboliza, distorce, liquidifica e disfarça o seu próprio feito. Numa encenação vertiginosa, dá nó no pingo d’água do dia. Seja de quem for o dia, todo santo dia e seja o dia de que santo for!
Filósofos, garis, economistas... todos sonham, todo dia. Psicanalistas, garimpeiros, cronistas- estes que fazem a história leiga do cotidiano, que é um jeito de desatar nós de linguagem insuficiente, sonham também, têm pesadelos, tudo igualzinho a todo mundo no mundo, exceto aqueles que “deletaram” o mundo sem saber que o fizeram. Casos especiais. No mais, as vias alternativas, as “terceiras” vias, as utopias e os escândalos de toda criação, sem exceção, vivem se abastecendo do alpiste onírico de sonhantes pessoa física que se entrechocam numa arena de choros e risos, de crimes e castigos. De infernos pessoais e redenções coletivas.
Observações ingênuas, espontâneas, que surgem do nada, não raro dão nós, não na cama “da hora”, mas na hora da cama. Um meu exemplo, por exemplo: divagava sobre a altura de uma cama em que repousava do tipo cama “americana”, alta, compacta. Luxuosa e imponente. Ah, pensava dentro do meu sonho, que conforto dormir acima deste chão de mundo e, derrepente...a angústia de me sentir isolado, sem vida, e que se transformou em medo de cair, bater a cabeça e...dormir pra sempre. Pouca coisa, para um caso isolado de sonhar com isolamento. E é nessas horas que me vem a idéia de Benjamin sobre o “passante” e o medo de não deixar meus traços no mundo; ou, de deixá-los em demasia. Uma oscilação entre a incapacidade de registrar a História e o desejo de, desarticulando-a, rearticulá-la e assim, desatar nós, tantos nós. Um nó apenas? É que Benjamin escreveu exatamente: “(...) Cada época sonha não somente a seguinte, mas ao sonhá-la a força a despertar” Desata essa...
A propósito de ter contornado a relação entre sono e morte, teria eu adulado meu leitor, lhe poupado algum desconforto? Mesmo quando alguns de nós sabemos que Ferenczi, psicanalista húngaro da turma do Freud, especulava sobre a vizinhança entre o sono, a morte e. o orgasmo?
Lá na França, aliás, há uma expressão intrigante sobre o orgasmo. Ele é chamado de “La petite mort”...
Bom, eu e a perda dos meus limites!
Foi bom?




3 comentários:

Cecilia Prada disse...

Marco, não foi bom, foi ótimo esse teu texto: saboroso, preciso, poeticamente psicanalítico.

Eliana disse...

Pra mim foi. E pra você?

Eliana disse...

Pra mim foi. E pra vc?

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