13 novembro 2010

DUPLO INFINITO


Puseram-se os gatos no telhado e os amantes sob um mesmo teto de espelhos. E sob um lençol se descobriam em pelo no outro, pouco importando a altura dos ronronados. Que pesadelos? O anoitecer também deflorava a madrugada, enquanto seu gozo escorria pelo vidro da janela das casas, amenizando calores. 

Amores podem caber em diferentes esferas: dentro dos olhos, dos sóis ou dos seios. Dão-se em todo e qualquer encanto. Até o destino tem um caso antigo com o acaso. Já as dores cabem no interior dos frascos de receio. Nem todo animal é triste após o coito, só está cansado, vencido pela própria vontade de potência. Nada é pôr. Ocaso raro, porque poucos ainda veem.

Os dedos no gatilho lançam o filho, projétil de vida. Corações disparados, mãos bobas ao alto. Abaixo, esses pés que friccionados geram bons calos, as pedras se fazem nos sapatos, às vezes é que descem ao precipício. Incham-se os calcanhares com fetiches, também o prepúcio. A carne e a unha, o couro e o cabelo, a lida e o lúdico, a chaleira e o chá. Tudo é perfeito quando páreo. 

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Pascal, quando pensa no universo, concebe-o como caracterizado pelo duplo infinito: todas as coisas, isto é, o universo, participam de seu duplo infinito. Este duplo infinito se traduz na possibilidade das coisas do universo serem aumentadas ou diminuídas ao infinito. Assim sendo, assevera:

on peut en concevoir un plus grand, et encore un qui le soit davantage; et ainsi à linfini, sans jamais arriver à un qui ne puisse plus être augmenté. Et au petit que soit un espace, on peut encore en considérer un moindre, et toujours à linfini, sans jamais arriver à un indivisible qui nait plus aucune étendue. (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 584)
Por isso, a dupla infinitude se traduz no universo infinitamente grande como também no infinitamente pequeno. O infinitamente grande e o infinitamente pequeno são para Pascal dois extremos aos quais o homem não poderá atingir, por isso, Pascal protesta: não nos falta menos capacidade para chegar ao nada do que para chegar ao todo, falta-nos uma capacidade infinita. Assim, esses dois extremos (que se encontram somente em Deus) estão como que velados ao homem: nossos sentidos não percebem os extremos (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). É o coração que sente o infinito.

3 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

TU, primeira a servir o chá, a estrofe primeira do Paulicéia Desvairada, também à tua Fortaleza
a última também, antes de algo pio:
'Morrente chama esgalga,
mais morta ainda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
e de longe em longe uma chávena da treva bem forte!'
Co-movido pelo teu Duplo Infinito saúdo os chaleirences e seus leitores hipócritas; palavras voltam ao dicionário - não há mais o que diga quando aurorece um nome da rosa. Pio.

Cecilia Prada disse...

Paola, não tenho o estro poético tão pronto e disparado do Marco para celebrar tua poesia e a sólida base cultural que sob ela transparece (o meu estro, demora um pouco a ser invocado). Então, só me resta expressar meu entusiasmo pelo que você escreve com palavras mais comuns, que são:parabéns deslumbrados!.

Paola Benevides disse...

Embriagados de chá estamos. Eu amanheci até a tarde sorrindo. Gratidão é pouco, deixo meu abraço repleto de pulso aos amigos!

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