13 janeiro 2011

CONFRONTO: OLHO E SERPENTE

CONFRONTO: ÔLHO E SERPENTE (I)

Por Cecília Prada

“A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma coisa na

mente. A memória é redundante : repete os símbolos para que a

cidade comece a existir.”

Ítalo Calvino

Porque hoje é sábado. É noite de sábado - e meu tempo, outro.

A idéia de que somos dois elementos, mais nada. Estamos reduzidos a isto - ela, eu. Uma rua e uma pessoa. Fluência, ela lá embaixo, barulhenta e destruidora – Rua Augusta. E eu, ponto convergente, um olho, neste vão de janela. Neste momento final - terei o quê? Minutos, horas, alguns anos? É tudo fim - só me resta descobrir o desenho. Se houve algum.

A rua insana que corre lá embaixo, estertorante - enorme serpente, vermelha, vermelho rio de lava acesa que escorre dos carros em fila lenta e buzinas escancaradas aos uivos na madrugada impune desta rua do prazer /rua da morte que gargalha todo o seu urbano horror na madrugada.

Eu sou um ôlho. Eis o que sou, me digo. Não sou mais nada. Se sou alguma coisa, sou um ôlho. Que olha por uma fresta da janela do 7º andar a rua lá embaixo. Essa rua. Essa rua particular e insana. É o que me foi dado - meu destino. Vim, pelos trancos e barrancos, parar aqui. Parece que alguém, alguma vassoura me varreu para este apartamento encaixado em um tempo inútil e que não é este - suas sancas, suas portas de vidro trabalhado, floreiras nas janelas, as cortinas rendadas com desenhos de pastoras e príncipes, do tempo da minha mãe. É toda a condensação de um imperativo urbano maldito que me veio tocando, até aqui - esta caixa do tempo, suspensa sete andares acima da rua degradada.

Piercing. Pérfuro-cortante o grito, que interrompe o sono dos assombrados moradores. O grito das putinhas histéricas, o grito dos laçadores vestidos de terno preto e gravata, até de sobretudo, na madrugada fria - caçando fregueses. O grito da briga, do bêbado, do debochado, o carro de som que passa apregoando um rap barato no mundo do vale-tudo.

Eu poderia ter salvo do patrimônio corroído alguma casinha no interior, alguma quitinete em frente à praia, mas não, tive de vir roendo tudo, tudinho - eu roí? me roeram? - às vezes penso. Depois da quebra do Banco, os credores, os primos. Os irmãos. Todos eles. Pelo menos não me tiraram o espaço, eu não abro mão deste espaço. As amigas estranham quando tão raramente vêm jogar, ah, que salão, e o piso em parquê, na sala de jantar os lambris - descascados, em reforma adiada sempre para um mês que vem que nunca vem. E o banheiro, ah, se admiram, ornatos art-déco em roxo batata no ladrilho branco,a banheira, a ferrugem só em alguns pontos, nem se vê, ah, você tem sorte de ter uma banheira, é melhor para relaxar, faz bem para a pele, não é como nesses banheirinhos de hoje...Faz bem para a pele - quem repara na minha pele?

AUGUSTA/angusta – é uma artéria comprimida, angustiada, da cidade. É uma cidade que não cabe mais em si, que explode em feiúra, em violência, em crime. Rua de muito sofrimento. De decadência. De degradação. Sujeira enorme, lixo amontoados nas esquinas, ratos e baratas, moscas, detritos e dejetos, e restos de seres humanos tombados nas portas dos estabelecimentos comerciais, dormindo – ou mortos? – ao sol do meio-dia, pessoas passando por cima deles sem se importarem. Em frente a um armazém estupidamente antigo que vende velas cereais e patéticas latas de goiabada cascão, um pretinho de uns onze anos está emborcado, dormindo o sono da droga - ou do desvalimento. Na mão semi-aberta que se entrega ainda num quase-pedido, alguém colocou uma barra de chocolate.

Na quitinete da praia com direito a pedaço de mar se a gente olhar bem enviesado, seria muito pior - para quê quero mares?

Na casinha de interior com pequeno-jardim-florido...Não, não sou mulher de roseiras. Nasci urbana, metropolitana - aqui morrerei, vomitando desespero por esta janela de um 7º andar.

(Este é um confronto. Me dizem vozes que não sei - que ainda consigo ouvir, varadas, por entre os uivos da noite).Somos dois antagonistas, antigos. Ou eternos. Eu - a Rua. Quem vencerá a batalha? Quem arrastará quem? Estamos, sim, colocadas frente a frente, nesta batalha final que alguém deve ter tramado. Rangemos os dentes, afiamos as garras, eu a olho cá de cima - ela se desdobra, coleante, rubra, sacolejante, cínica, lá embaixo.

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Do livro Faróis estrábicos na noite –Bertrand-Brasil, 2009


5 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

A propósito da homenagem que o blogue Miopia, do colunista Guilherme Salla, nos presta hoje, embargado:"De Salla, cozinha pouca não viria. Criança fazendo Arte, compenetrado e truculento, esse poeta sabe bem do que nos é alucinógeno nessa empreitada, mesmo porque, chaleira histórico, molécula por molécula (no zeingeinst do coletivo), serve o chá dele de Segunda desde os vapores de Janeiro/2009, quente e calculista.

Karam disse...

Augusta de dentro

Me lembro quando morava na capital, e pegava meu ônibus na Augusta, para descer até a Faria Lima. Transitava sempre no contra-fluxo de todos esses detalhes e pensava muito, tentando pensar em nada.
É curioso pensar na sua metáfora do ôlho. Para muitas culturas é a representação de um Deus superior, existem imagens disso do cristianismo à tradição regiliosa do egito antigo. Fiquei pensando se esse Deus, esse ôlho, também não encara a serpente interior, àquela Augusta que há dentro de nós, com suas energias contraditórias, que mostram que a Augusta de fora é só a manifestação de uma metáfora no mundo externo.

Cecilia Prada disse...

Para Karam

Bem falado isso,do meu texto, agradeço ao comentarista. Em tudo o que escrevo, aliás, há sempre esse dualismo,sou -quero ser, quero continuar a ser - graçasadeusmente complexa, contraditória, e questionante. A literatura que não é questionamento (indo fundo alma a dentro) não vale. Para mim, pelo menos. Ou antes, para não exagerar: vale,sim, como entretenimento, como tentativa de comunicação,que seja, mas...

Isabel Furini disse...

Uuuaaauuuuu! Um texto magnífico.Rico em detalhes, metáforas, perspectivas. Nota 10!

Cecilia Prada disse...

Obrigada, Isabel, retribuo o cumprimento porque seus textos são ótimos. Acho em mim grandes afinidades com você - temas meus, muitos meus, a casa paterna,as galáxias de culpa e mistério...Vale.

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