13 abril 2011

EVOCAÇÃO: UMA MULHER E SEUS CHAPÉUS



EVOCAÇÃO : UMA MULHER E SEUS CHAPÉUS

Por Cecilia Prada

Coincidências ou sincronias, como as queria Jung – são coisas que dão o que pensar. Como a figura de uma escritora esquecida, mas que marcou presença na sociedade e na literatura dos anos 30 e 40, que veio um dia se debruçar sobre meu ombro e me animar concretamente a escrever sobre ela - a carioca Adalgisa Nery (1905-1980), poeta e romancista, importante jornalista, deputada cassada sob a ditadura militar. Uma vítima dramática do silenciamento que pesou e pesa ainda, explícito ou disfarçado, sobre as mulheres que, pelo menos até meados do século XX, tiveram de lutar muito pelo direito de expressar sua inteligência – sua fala.

Quando, em 2005, escrevi um artigo sobre ela para a revista Problemas Brasileiros, do SESC-SP, as circunstâncias da sua vida me impressionaram tanto que planejei voltar a falar dela com mais vagar, após ler suas obras, resgatadas de sebos. Mas fui adiando o projeto.

Ora, dois ou três anos mais tarde, encerrando um dia de trabalho normal, antes de desligar o micro lembrei-me de repente, e sem nada que provocasse meu pensamento, dessa vontade de escrever mais sobre Adalgisa. Resolvi passear um pouco pela net, procurando-a. Topei com um arquivo que trazia um belo retrato da “mulher dos chapéus”, como fora chamada – pela originalidade dos múltiplos chapéus que ela própria criava. Demorei-me encarando-a e invoquei-a: Adalgisa, tenho tanta vontade de te conhecer melhor, de escrever mais sobre você, vê se me ajuda!

Passado o minuto de invocação, já ia desligando o micro quando me lembrei de dar uma olhada na minha caixa de correio. Acreditem: lá estava uma mensagem de Adalgisa – indireta mas clara, que acabara de chegar : a carta de um sobrinho-neto da escritora, agradecendo o artigo que eu escrevera – mais de dois anos antes. Carta endereçada à revista e encaminhada a mim, e que eu abriria, repito, justamente naquele momento, imediatamente após a invocação....

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Esguia, elegantérrima, inteligente e bela, retratada por pintores famosos – Portinari, Diego de Rivera, além do próprio marido, Ismael Nery – Adalgisa permanece envolta em uma aura de mistério pouco desvendado, figura controvertida que até na memória da família, dos filhos, parece não ter encontrado, ainda, paz , por ter uma vida particularmente marcada pelas contradições inerentes às condições de vida da mulher brasileira do seu tempo. E por ter executado em si própria, nos últimos anos de sua existência, a inexorável sentença que a sociedade – até hoje – impõe à mulher dilacerada entre sua “feminilidade”e os tradicionais compromissos da família e sua inteligência, sua realização pessoal : o silenciamento.

Confrontada de um lado pela cassação política que a privava do exercício do jornalismo – elegera-se três vezes deputada, duas pelo Partido Socialista Brasileiro e na terceira pelo MDB- de outro pelos conflitos com os filhos, por quem se sentia espoliada, foi obrigada a vender o próprio apartamento em que vivia. A escritora viu-se então constrangida a aceitar a generosa oferta de abrigo na casa de campo de um amigo, o radialista Flávio Cavalcanti. O que fez com que, ao lançar em 1972 seu último romance, “Neblina” (que curiosamente já antecipa a afasia auto-imposta de uma mulher) , se visse ignorada sistematicamente e execrada pela crítica ideológica, por ter dedicado a obra ao amigo que a acolhera – diziam que Flávio era inclusive dedo-duro dos colegas comunistas....mas entre o “politicamente correto” e a gratidão a um amigo, ela escolhera a última.

A bela Adalgisa resignou-se então a calar-se – e ainda em pleno vigor intelectual, sem ter doença alguma, internou-se em uma clínica de idosos. Onde, dizem, não pronunciou mais nenhuma palavra, até que um ano mais tarde, atingida por um AVC, foi realmente calada para sempre.

Deixou-nos romances autobiográficos, sendo o mais importante “A Imaginária”, de 1959, e também livros de contos, de poesias e de jornalismo. Seu talento foi reconhecido no Brasil e até na França. Até o filósofo Gaston Bachelard leu suas poesias e escreveu-lhe uma carta, elogiando-a. Mas as intrigas do meio literário a desgostaram de tal maneira que resolveu apagar-se, deixando um belíssimo “Poema do Silêncio”, assim iniciado:

“Silêncio, cobre o meu pensamento e o meu coração.

Cobre o meu corpo do desejo dos homens

E a minha sombra da luz do sol.

Cobre até a lembrança dos meus passos

E o som da minha voz.

Cobre a minha caridade e a minha fé,

A vontade de morrer e também a de viver.”


2 comentários:

Isabel Furini disse...

Brilhante o seu texto e muito interessante o fato de compartilhar um pouco da biografia e um belo poema dessa grande escritora - hoje quase esquecida. Procurarei nos sebos.

Paola Benevides disse...

Cemitério Adalgisa

Moram em mim
Fundos de mares, estrelas-d'alva,
Ilhas, esqueletos de animais,
Nuvens que não couberam no céu,
Razões mortas, perdões, condenações,
Gestos de amparo incompleto,
O desejo do meu sexo
E a vontade de atingir a perfeição.
Adolescências cortadas, velhices demoradas,
Os braços de Abel e as pernas de Caim.
Sinto que não moro.
Sou morada pelas coisas como a terra das sepulturas
É habitada pelos corpos.
Moram em mim
Gerações, alegrias em embrião,
Vagos pensamentos de perdão.
Como na terra das sepulturas
Mora em mim o fruto podre,
Que a semente fecunda repetindo a vida
No sereno ritmo da Origem.
Vida e morte,
Terra e céu,
Podridão, germinação,
Destruição e criação.

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