07 fevereiro 2010

FRAGMENTÁLIA - A GENITÁLIA DA MICRONARRATIVA

NECESSIDADE
Por Luiz Contro

Ouvia tudo o que ele dizia e participava de suas inquietações mais secretas. Sentavam na mesma carteira da escola. Corriam juntos soltando pipa. Trocavam olhares e sorrisos matreiros quando entre adultos. Consolavam-se também. Determinados dias entristeciam pela separação:

─ Chico, hoje vou lavar teu ursinho.

***

-Sim! Sim! ela suspirava: sono pesado na cama vazia.


Por Rafael Noris

***

FRAGMENTO TEÓRICO I
Por Marco A. de Araújo Bueno

Prezados Senhores: Universidade Harvard, Camdridge, Mass, conferências Norton, ano letivo de 1985-1986, em meio às considerações sobre a rapidez, Ítalo Calvino refere-se a Borges e Bioy Casares, assim: - “(...) organizaram uma antologia de Histórias breves e extraordinárias. De minha parte, gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível. Mas até agora não encontrei nenhuma que supere a do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí [Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá]”. Eram as “Seis propostas para o novo milênio”, das quais, a última, Calvino levou consigo; sua morte interrompera conjecturas preciosas sobre a narrativa. Um limite, limite que excitaria a imaginação de escritores e leitores, estes seres que protagonizam a angústia da escrita (face às escolhas a que os obriga) ou a ela submetem-se de alguma forma (face à interpelação suscitada) neste peculiar processo de abertura ao infinito das imaginações.Todo este processo, tributário das condições basilares da existência do animal da fala: sua finitude e sua inserção nos “bosques da ficção” no caso e no reino do simbólico, no geral. A propósito, com esta metáfora do bosque, Umberto Eco intitula suas seis conferências de Norton, ano letivo de 1994, recobrindo a “literatura-bosque”, a homenagem ao amigo falecido e a questão, aqui fundamental, da presença do leitor na história narrada. Trata-se, portanto, aqui, de um estudo que tematiza o efeito da escrita, muito especialmente, de uma modalidade de escrita – a interrompida, esta que é deliberadamente sustada para suscitar um efeito no leitor. Epifania - assim tratarei da idéia de efeito; narrativas monofrásicas tecidas com dez palavras - assim consignarei metodologicamente, a guisa de ilustração das possibilidades de tessitura de peças narrativas brevíssimas, o desejo expresso por Calvino, no bojo da hipermodernidade, tal como a descreve o filósofo francês Gilles Lipovetsky; em pleno novo milênio. Calvino dizia que sua obra “(...) se compõe em sua maior parte de short stories”; segundo ele, questão de “temperamento” pessoal. Há, quanto à extensão, evidências de que a prosa literária vem rendendo-se a um processo de redução formal ao longo do tempo. Neste início de milênio o termo usado por Calvino para definir sua predileção pela brevidade não se aplica ao seu próprio “As Cidades Invisíveis”, com a mesma concepção com que se aplica à idéia de conto. E ainda que brotado no século XIX, com certidão de nascimento estadunidense, traz consigo um entusiasta defensor, prescritivo, já em 1847(escrevendo sobre os contos de N. Hawtorne) de cânones que rejeitam o “juízo nefasto de que a simples extensão de uma obra deva pesar na estimação de seus méritos”. Seu nome – Edgar Allan Poe; Suas propostas ponderavam a ‘aparição’ das revistas, dos jornais, a dimensionarem a percepção literária face ao progresso dos novos tempos. O presente estudo o convoca, oportunamente.
Até o próximo domingo;

DROPS TEÓRICOS : "UNO DECÁLOGO"

Por ( pequeno suspense metodológico...)

En el “Decálogo del escritor” de Monterroso, incluido en su libro Lo demás es silencio (1978), se reconoce la referencia metatextual del Decálogo del perfecto cuentista de Horacio Quiroga (1925), y la referencia architextual de los doce mandamientos de la Ley de Dios. A toda esta fábrica de intertextualidades se suman “Los diez mandamientos del escritor”, microcuento del uruguayo Fernando Aínsa. {De livro e autor que oportunamente citerei; sintam um pouco da rarefação teórica sobre o gênero. Menos é mais, mais ralação!}


1.-Te amarás a ti mismo sobre todas las cosas.
(Amarás a si mesmo acima de todas as coisas.)

2.- No mencionarás el nombre de Borges en vano.
(Não mencionarás o nome de Borges em vão.)

3.- Seis días descansarás y uno escribirás.
(Seis dias descansarás e um escreverás.)

4.- Te inventarás tu propia filiación literaria.
(Inventarás sua própria filiação literária.)

5.- Si cometes parricidio generacional, será con pudor y disimulo.
(Se cometer parricídio generacional, será com pudor e disfarse.)

6.- No seducirás a la poetisa en busca de prólogo.
(Não seduzirás a poetisa em busca de prólogo.)

7.- No robarás las metáforas del poeta inédito.
(Não roubarás as metáforas do poeta inédito.)
8.- No llamarás palimpsesto intertextual a la simple copia banal.
(Não chamarás de palimpsesto intertextual a simples cópia banal.)

9.- No desearás el éxito de ventas del prójimo escritor.
(Não desejarás o sucesso de vendas de escritor algum.)

10.- No eliminarás las comillas de las citas ajenas.
(Não eliminarás as aspas das citações alheias.)

6 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Grata surpresa, Noris, teus desenhos ágeis.Do Mc eu já sabia e o considero nattarivo, eliptico, atômico (na acepção barthiana)e circular, na concepção de Poe.Bravo!Luiz Contro, bem, este fez de novo e seus minicontos ("short-histories") parecem ter, nesta coluna, um lugar definitivo.

Luciano Garcez disse...

3.- Seis días descansarás y uno escribirás.
(Seis dias descansarás,e um escreverás.)

Dizia Cabral, no dito célebre, típico de um enxaquecoso, q "a poesia nasce do talento e da preguiça"...

4.- Te inventarás tu propia filiación literaria.
(Inventarás sua própria filiação literária.)

O "Paideuma" poundiano - apesar de eu mesmo ser um poundiano - é arbitrário, pq é o PAIDEUMA DELE, apesar de 80% ser de um tirocínio preciso. Mas gosto e desgosto de coisas unanimemente consagrdas, de ídolos do templo, mui subjetivamente: Dostoiévski nunca me comoveu como Musil e Thomas Mann (q são considerados "chatos", mas geniais pela maioria leitora.), "La Recherche..." me cansa, como Gôngora (muito mais labiríntico e retorcido, pq Proust é impressionsita e leitoso)pelo contrário, me deixa em êxtase, e troco todo Guimarães Rosa por Stendhal. Mas isso é "gosto": como não suporto comida japonesa, mas me piace la filosofia orientale - sou iniciado no Taoísmo, por exemplo. E Pound era ferino com Whitman, Milton e reticente com Camões. O q seria do verde se todos gostassem do...? e etc.

Abçs, hermanito Marcaraujo, lo bueno, pelos toques dos toques nos retoques poéticos do receituário que publicaste.

Luciano Garcez disse...

"Ouvia tudo o que ele dizia

quando entre adultos.

consolavam-se também.

separação."

Dichten, estes são os picos melódicos da lírica micronarrativa - escrita de interioridades, clara e contística, mas sem desfoque de "intenção": sabemos sempre o "dois" ali, o "eu e o tu", mas já na história o "um", indivisibilizado com leveza pelo Rafael.

O q rompe o fluxo cadencial é um "eu" de primeiridade, de sutileza sexual em uma pincelada shodô:

"─ Chico, hoje vou lavar teu"
ursinho.

Já os corpos lassos na cama, o Rafael parece saber bem pq se chama em árabe o orgasmo de "a morte diminuta".

Alan Carline Queiroz disse...

puxa vida;nada mais pratico do que uma boa teoria.Me faz muito bem aos neuronios.absorvi.Olha o Rafa postando seus desenhos,que senso cinestesico um rastro.Demais isso,querer imprimir movimento aonde não tem.E...curto muito tb dessa pegada intimista do conto do Luiz Contro.

Rafael Noris disse...

adorei os drops teóricos e já espero ansioso o de domingo próximo, também espero ansioso o encontro de sexta... hehehe... parabéns a todos. que borges esteja com vocês (não, isso não foi em vão).

Luciano Garcez disse...

Errata: como os títulos estão deslocados, atribuí a primeira narrativa ao Rafael, e é do Luiz Contro. Desculpas autorais - mas "teoriais" continuam sem desculpas.

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