20 fevereiro 2011

FUCKING FÚCSIA DONA ROSA

Por : Rafa Carvalho

Bateu no 22. A menina doida não estava. Vai ver, fingia não estar. Queria reclamar da noite anterior. De novo. Como ontem, anteontem e terça. Mas, vá lá... Pensava mesmo era no caçula. E no calor.

Era dona do prédio e também do comércio ao lado. E, havia dias, passara a sentir, assim por dentro, um calor intenso. Nada como o calor da já vivida menopausa, sabia. Mas algo como aquele calor da mocidade. Dos tempos dos quais já mal se lembraria...

O locatário do comércio, havia dias também, recebera ali seu irmão mais novo, para morar e trabalhar com ele. Por uns tempos, sabe como é. Era sujeito bem apessoado. Vinha de longe. Olhos claros. Doce olhar. 40 e tantos.

Ela tinha 77. 20 de viuvez. Havia uns 30 que não fazia as unhas. E, de repente, veio o sério sintoma: se maquiou. Passara a freqüentar o comércio diariamente. Várias vezes ao dia. Já não era só o aluguel, a passadinha esporádica, o produto necessário. Era já também o ‘bom dia’, o ‘boa tarde’, o meio entre o bom dia e a boa tarde, o gás que acabou, a lâmpada queimada, a resistência do chuveiro, o gato preso na máquina de lavar, o docinho feito com carinho, o convite pra almoçar no domingo, o cachecol de tricô...

E, assim, adveio o dia que se diferenciaria significativamente dos 10.957 dias anteriores. Entrou na manicure. A atendente recebeu-a estupefata. Mas o mais surpreendente ainda estava por vir. Exigiu uma cor jovem, sensual, insinuante, atraente... A tendência daquele verão hormonal.

Saiu de lá com as mãos vestidas em “fúcsia frenesi fascinante”. Ou será que era “fúcsia fascinação frenética”? Já não se lembrava mais do nome do esmalte. Nem entendia o porquê daquilo não se chamar simplesmente rosa, como ela. Mas também, vá lá... Pensava mesmo era no caçula.

Seguiu direto pro comércio. Lá, olhou-o bem, sorriu-lhe decidida, aproximou-se toda-toda e foi logo botando a mão delicada e imponentemente em cima do balcão.

2 comentários:

Anônimo disse...

Menos comezinho do que parece.Safra recente, aliás - bem enganosa:Vitor delira no interior de trilhos;Salla não faz metalinguagem do poema e, quanto ao poema de Paola, augusto(dos anjos, diria: Eu!

Rafa - Vida em Obras disse...

e viva a liberdade de ex-pressão!

pra quem tem bagos... e cara e nome pra dar... e pra quem não tem!

bom apetite com suas coisas palatáveis e bom jejum por aqui, senhor anônimo! seja como seja, seja sempre bem-vindo!

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