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EXASPERAÇÃO DO SER NA INCOMPLETUDE
Por Cecilia Prada
A obra, já disse Barthes, é uma pretensão - uma ilusão da vaidade. O que existe é o ir se registrando, o fragmento, o possível e contínuo, pontinha do Ser emergindo na madrugada e logo agarrado com pinça fina, trazido à luz. Quase sempre se desmancha, fantasma, mesmo à luz tênue da manhã. Se esgarça, retornando àquele continuum ululante - que é o som do universo, em nós, o mar, o mar dentro da concha (omlulante).
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Clarice Lispector compreendeu, quase no final de sua longa carreira literária, a validade suprema do fragmento - permitiu-se “Água viva”. Os fios soltos e abundantes da vida e da ficção sempre foram sua preocupação. Dizia, já muito antes :“Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só : meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias”.
Os tidos como poetas também se autorizam fragmentados. Dificuldade em se aceitarem, em se exporem assim , têm os chamados “estilistas “ - cuja força maior está na expressão, e não na mera intriga. Eles se impõem tarefas, contos, novelas, romances - e ficam exasperados quando se vêem, no fim da tarde e da vida, com os fios soltos da prosa decompostos nas mãos.
Eu vim me guardando, meus fragmentos - solidão.
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Mulher vendendo textos na porta de uma livraria:
-Textos, senhores, textos, textos a valer. Levando contextos e subtextos como bonus. Como quer seu texto? Embrulhado, plastificado, sussurrado ou cor-de-rosa?
- Cor de rosa-rei.
- Como assim? Só tem azul-rei.
-Então vá reinar em outra freguesia, minha senhora, já vi que seus textos não têm imaginação. Nem paixão.
-Alto lá, não faça simplificação tamanha sem de mim conhecer mais do que a mera vontade de vender um texto que...
(Mas o vento, que escutava a conversa, furioso arrebatou-lhe o texto da mão, sem mais. E sepultou-o no ar, para sempre.)
Capítulo X
Recapitula tudo, ordinária!
NOS CAPÍTULOS ANTERIORES a trupe do vaudeville de Joseph Hart vinha não sei de onde [ ............ 12pt. ] cacos panelas arapucas roda de carroça, ai! fresta e frincha a lona das boléias, ai! o volante do caminhão – e parou na beira da estrada para fazer não sei o que.
Joseph Hart, o patrão vitou o tacão das botas e o relho para a corcunda de Chast Aldrich, o anão. Não interessa! o propietário do vaudeville gritou, talvez um grilo tenha chiado no matagal. Bora ver, qué que não interessava, Maria Amélia, vosmecê alembra?
Baixaria, minha filha, fofoca, o possível assassinato do pai de Joseph, seu Giacomo, a bigamia no trapézio fazendo piruetas e brandindo a sua sombrinha.
Gregor, um pianista do Alabama, e o infame aleijão entre artérias inchadas, cabeças de fêmur, cavidades cavilosas teciam esses e outros boatos enquanto cuspiam bagaços de cana no barro seco.... e agora? chove. Puta merda!, chove.
O posto de gasolina abrigará os histriões que, por sua vez, tentarão secar as roupas para se-apresentarem-se hoje à noite. O posto de gasolina contudo entretanto todavia [ ....... 7pt. ] é verbo, Rafael Noris. Puta merda! Nada não virou substantivo ainda.
Bora, Maria Amélia escutar o barulho da chuva no feltro das barracas:
Capítulo XI
O BARULHO DA CHUVA NO FELTRO DAS BARRACAS
pode
chover, bia hart
corda frouxa buracos de tinta
rasgada num toldo
esmaecido
pode
chover renata
o´brien roda emperrada
de uma carroça
torta
pode
chover à bruta
por que, ai! freve
o para lama o escapamento
é um fumaceiro e
a velha já está
na gruta
Capítulo XII
o feltro DA CHUVA E O BARULHO dOs barracOS
... e agora, José? chove [ ......................................... 41pt ] bastante, e entonces? bora tentar juntos da areia fina a palha do ódio varrer.
Bia Havel e Renata O´Brien Hart cantarão juntas o próximo capítulo e o mistério da bigamia será revelado. Prontofalei.
NÃO PERCA, NA TERÇA-FEIRA, DIA 10/05 O NOSSO FOLHETIM´S GONNA BUSTING ALL OVER...
ROTOSCÓPIO I
[Philosophemas]
Por Antônio d'Alemar
Mas de onde vem esta manhã que, apesar de tudo,
não nos abandona? Somos privilegiados.
O mar é mais catastrófico na televisão
E nos sítios onde felismente não estamos.
A terra treme debaixo dos outros
E o sol mantém uma imoralidade média e
{neutra
Sobre grandes assassinatos (...) *
· Canto V ; 44
· Gonçalo M. Tavares
· “Uma Viagem à Ìndia”
· Editorial Caminho, 2010
"Tenho apenas duas mãos e o sentido do mundo."
O dia internacional do livro foi instituído pelo Unesco em 1996. A homenagem ao livro é celebrada em cerca de 100 países no dia 23 de abril, e mobiliza uma vasta rede internacional de editoras, livreiros, bibliotecários, associações de autores, tradutores e muita gente na luta pela causa do livro, leitura e da literatura.
A escolha do dia deve-se ao fato de vários escritores consagrados, como Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Vladimir Nabokov e Josep Pla, nasceram ou morreram em um 23 de abril.*
*Fonte: CBL
EVOCAÇÃO : UMA MULHER E SEUS CHAPÉUS
Por Cecilia Prada
Coincidências ou sincronias, como as queria Jung – são coisas que dão o que pensar. Como a figura de uma escritora esquecida, mas que marcou presença na sociedade e na literatura dos anos 30 e 40, que veio um dia se debruçar sobre meu ombro e me animar concretamente a escrever sobre ela - a carioca Adalgisa Nery (1905-1980), poeta e romancista, importante jornalista, deputada cassada sob a ditadura militar. Uma vítima dramática do silenciamento que pesou e pesa ainda, explícito ou disfarçado, sobre as mulheres que, pelo menos até meados do século XX, tiveram de lutar muito pelo direito de expressar sua inteligência – sua fala.
Quando, em 2005, escrevi um artigo sobre ela para a revista Problemas Brasileiros, do SESC-SP, as circunstâncias da sua vida me impressionaram tanto que planejei voltar a falar dela com mais vagar, após ler suas obras, resgatadas de sebos. Mas fui adiando o projeto.
Ora, dois ou três anos mais tarde, encerrando um dia de trabalho normal, antes de desligar o micro lembrei-me de repente, e sem nada que provocasse meu pensamento, dessa vontade de escrever mais sobre Adalgisa. Resolvi passear um pouco pela net, procurando-a. Topei com um arquivo que trazia um belo retrato da “mulher dos chapéus”, como fora chamada – pela originalidade dos múltiplos chapéus que ela própria criava. Demorei-me encarando-a e invoquei-a: Adalgisa, tenho tanta vontade de te conhecer melhor, de escrever mais sobre você, vê se me ajuda!
Passado o minuto de invocação, já ia desligando o micro quando me lembrei de dar uma olhada na minha caixa de correio. Acreditem: lá estava uma mensagem de Adalgisa – indireta mas clara, que acabara de chegar : a carta de um sobrinho-neto da escritora, agradecendo o artigo que eu escrevera – mais de dois anos antes. Carta endereçada à revista e encaminhada a mim, e que eu abriria, repito, justamente naquele momento, imediatamente após a invocação....
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Esguia, elegantérrima, inteligente e bela, retratada por pintores famosos – Portinari, Diego de Rivera, além do próprio marido, Ismael Nery – Adalgisa permanece envolta em uma aura de mistério pouco desvendado, figura controvertida que até na memória da família, dos filhos, parece não ter encontrado, ainda, paz , por ter uma vida particularmente marcada pelas contradições inerentes às condições de vida da mulher brasileira do seu tempo. E por ter executado em si própria, nos últimos anos de sua existência, a inexorável sentença que a sociedade – até hoje – impõe à mulher dilacerada entre sua “feminilidade”e os tradicionais compromissos da família e sua inteligência, sua realização pessoal : o silenciamento.
Confrontada de um lado pela cassação política que a privava do exercício do jornalismo – elegera-se três vezes deputada, duas pelo Partido Socialista Brasileiro e na terceira pelo MDB- de outro pelos conflitos com os filhos, por quem se sentia espoliada, foi obrigada a vender o próprio apartamento em que vivia. A escritora viu-se então constrangida a aceitar a generosa oferta de abrigo na casa de campo de um amigo, o radialista Flávio Cavalcanti. O que fez com que, ao lançar em 1972 seu último romance, “Neblina” (que curiosamente já antecipa a afasia auto-imposta de uma mulher) , se visse ignorada sistematicamente e execrada pela crítica ideológica, por ter dedicado a obra ao amigo que a acolhera – diziam que Flávio era inclusive dedo-duro dos colegas comunistas....mas entre o “politicamente correto” e a gratidão a um amigo, ela escolhera a última.
A bela Adalgisa resignou-se então a calar-se – e ainda em pleno vigor intelectual, sem ter doença alguma, internou-se em uma clínica de idosos. Onde, dizem, não pronunciou mais nenhuma palavra, até que um ano mais tarde, atingida por um AVC, foi realmente calada para sempre.
Deixou-nos romances autobiográficos, sendo o mais importante “A Imaginária”, de 1959, e também livros de contos, de poesias e de jornalismo. Seu talento foi reconhecido no Brasil e até na França. Até o filósofo Gaston Bachelard leu suas poesias e escreveu-lhe uma carta, elogiando-a. Mas as intrigas do meio literário a desgostaram de tal maneira que resolveu apagar-se, deixando um belíssimo “Poema do Silêncio”, assim iniciado:
“Silêncio, cobre o meu pensamento e o meu coração.
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol.
Cobre até a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz.
Cobre a minha caridade e a minha fé,
A vontade de morrer e também a de viver.”
capítulo IX
FRATURA EXPOSTA
Parece que não.
Parece que não vai. Não tem graça, borboleta furada,
não vejo nenhuma graça na cabeça de alfinete que prendia, então, as noites e os tablados. Adão, naquela época, chamou cada bicho de bode, cachorro, elefante
ou vespa. As palavras, hoje quando, entretanto, não têm mais serventia. Uma família de refugiados atravessa a fronteira do Líbano em 1982. Moscas azuis caídas
para suturar. Lábios, ossos ou feridas. Nervos. Cartilagens. Músculos falidos. Não vai. Achtung! Bruta chuva, bruta chuva. O tédio varre a Palestina, o Irã, a Líbia e o Egito. Parece que. Parece que não. O tédio que acompanha o tiroteio, o ódio e o exílio fratura os varais, senhoras e senhores, do nosso folhetim.
Aldrich? Anão de merda. Enfie a cenoura na boca e fique quieto. Página em branco, é o que há. Palavrões. Nada será capaz de rabiscar, ó agulha. Ó crueldade. Palhaços, trupe de folgazões, saltimbancos. Profissionais sérios. Nossa Senhora e o seu filho na beira da estrada, num jumentinho que vai para o Egito. Sem pecado. Crianças que não querem crescer. Sem pecado, sem pavor. Pegue um charuto, lamba a ponta do polegar. Bora, Maria Amélia, folheie as páginas. Você está vendo? O que é que você está vendo? Choveu ontem à noite. Pegue a caneta, rabisque, rasgue o folhetim. Não adianta. Parece que não vai. Páginas cheias de formas, páginas trituradas, manchadas de lama, lanhadas de alto a baixo ainda são páginas
Parece que não
vai. Aranha, grilos e formigas. Parece. Alfinetes traiçoeiros, escondidos nas areias do deserto. raspando a carne viva dos meus pés e das minhas mãos. Bata palmas, João Batista, bata palmas.O burrico trotará indiferente. Os saltimbancos voltarão, senhoras e senhores, no dia 26 de maio.
O folhetim prosseguirá. Firme e forte. As palavras e as borboletas, memsahib pupin, têm serventia. Ossos e feridas. Nervos. Cartilagens. Pé de cabra. Não quero choro nem vela. Músculos flácidos. Achtung! Não procure, Aldrich,
a batida perfeita de Flaubert. Não vai. Parece que. Parece que não. Não vai dar certo, anão. Enfie a cenoura na boca, Chast Aldrich, achtung! e fique quieto até o próximo capítulo. O posto de gasolina já está bem perto.Rodas de carroça, lonas bem amarradas. Pinguim de geladeira, bibelô de porcelana. Vamos em frente.
Quebra-pratos
ilu
aí os vento de Oyá Iansã tira os taco do chão
no lufa-lufa
arrasta as alma e as tira da chinela
ó iabá
pra cima e pra baixo
no lufa-lufa
troca tudo de lugar
epa-hei!
troca tudo de lugar
aí os vento de Oyá Gbalé quebra os prato e logo as folha seca
vai parar noutro riacho : sempre cada vez melhor
epa-hei Oyá!*